4. ECONOMIA 12.9.12

1. AS LEIS DE HERANA
2. AINDA PODE FICAR PIOR
3. GUSTAVO IOSCHPE  POR QUE SOMOS TO POUCO AMBICIOSOS?

1. AS LEIS DE HERANA
Sejam bons ou maus, os presidentes brasileiros sempre deixam como legado um governo maior do que aquele que encontraram. 
ANA LUIZA DALTRO

     Do ponto de vista que realmente interessa  populao, um acerto permanente do atual governo soma-se ao acerto do governo passado, no importa qual a cor partidria do ocupante da cadeira destinada ao mais alto mandatrio do pas. Na perspectiva de quem precisa avanar na carreira ou gerir melhor a empresa que dirige, que tem responsabilidade pela criao dos filhos e, agora, pelo cuidado com os mais velhos, a passagem da faixa presidencial  sempre a renovao da esperana de continuidade das boas coisas que vinham sendo feitas em favor do progresso material, social e moral do pas. Para o resto de ns, a passagem da faixa lembra a passagem do basto em uma disputa de revezamento, em que um corredor desacelera enquanto o colega dispara, mas o objetivo  um s  ganhar a corrida em benefcio da equipe. Para os polticos,  diferente. Como enfatiza a Carta ao Leitor desta edio (veja na pg. 13), a imagem poltica  um jogo de soma zero, em que as realizaes de um presidente da Repblica e seu grupo poltico so sempre negativas para os adversrios, e vice-versa. Por essa razo, os polticos esto sempre falando em herana benigna (dos aliados) e maligna (dos adversrios).
     Em artigo publicado na semana passada pelos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso acusou o ex-presidente Lula de deixar uma herana pesada como chumbo para Dilma Rousseff, sua sucessora e afilhada poltica. Fernando Henrique criticou a lassido tica sob Lula e a total falta de empenho nas reformas estruturais, alm de apontar a queda na produo e no valor de mercado da Petrobras. Dilma reagiu defendendo Lula em nota oficial. No recebi um pas sob interveno do FMI ou sob ameaa de apago, escreveu ela carregando nas tintas, sob bvia influncia da atmosfera radical que impera em perodos pr-eleitorais, como  o caso agora. A favor de Dilma registre-se que sua nota oficial tem trechos de lucidez quando ela  a exemplo de sir Isaac Newton, que atribua suas descobertas das Leis Naturais ao fato de enxergar o mundo sobre os ombros dos gigantes que o precederam  diz que ao lanar o olhar sobre administraes passadas tem o objetivo de no cometer os mesmos erros e imitar os acertos. Eis a um conceito em harmonia com a corrida de revezamento, em que a passagem do basto  feita em nome da continuidade das coisas certas que vinham sendo realizadas.
     Apesar de toda a estridncia poltica e partidria, a verdade  que o Brasil tem sido uma nao bem aquinhoada nesse quesito. Bem ou mal, o pas vem caminhando h tempos na direo correta, mesmo que, em certos setores, em ritmo exasperantemente lento. Isso se deve em parte aos seus presidentes, aos partidos e s instituies. Ao contrrio de tantos maus exemplos na vizinhana (como Argentina, Venezuela ou Equador), no tivemos um presidente louco o bastante para declarar uma guerra externa, invadir militarmente um territrio soberano ou desmantelar todas as instituies para perpetuar seu grupo poltico no poder. At nossos ditadores, inclusive os militares, ao contrrio dos de Cuba, por exemplo, deram golpes com prazo de validade, preparando sua sada do poder desde o primeiro momento. Talvez por essas razes, quando se observam os indicadores, o Brasil  um pas que melhora a cada ano.
     No dia 1 de janeiro de 2003, Fernando Henrique Cardoso entregou a Luiz Incio Lula da Silva um pas melhor do que aquele que recebera do seu antecessor, Itamar Franco. Lula, por sua vez, legou a Dilma Rousseff, no ano passado, uma nao mais prspera, e Dilma quase certamente entregar a faixa presidencial a seu sucessor em condies ainda mais favorveis. A histria mostra que o desenvolvimento socioeconmico dos pases tende sempre a crescer com o tempo, salvo situaes de completa exceo, como guerras, catstrofes naturais ou crises econmicas agudas. A proporo de analfabetos no Brasil, que j foi de assustadores 57% da populao adulta em 1940, hoje  inferior a 10%. Em 1950, irrisrios 8,6% dos domiclios contavam com rede de esgoto, e, meio sculo depois, o porcentual subiu para 52,5%  um padro ainda inaceitvel para um pas que pretende ingressar no bloco das naes desenvolvidas, mas com certeza um avano em relao ao passado. Outro exemplo  a produo cientfica. O nmero de artigos cientficos de pesquisadores brasileiros publicados internacionalmente saiu de pouco mais de 3000 em 1992 para quase 13.000 em 2009.
     A anlise dos indicadores, a longo prazo, revela que o progresso  gradual. independentemente da qualidade dos governantes  at porque o poder deles  limitado por diversos fatores. Diz o economista Armando Castelar Pinheiro, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundao Getulio Vargas (Ibre-FGV). O fator externo  vital. Pases de uma mesma regio com polticas completamente diferentes crescem. Mas evidentemente os que aproveitarem o bom momento para aprimorar as suas instituies sairo fortalecidos. Os governos de gesto eficiente impulsionam seus pases a crescer mais, e sem aumento da inflao.
     Alm dos limites da poltica, os economistas afirmam que as diferenas entre os governos de FHC e de Lula so menores do que gostariam de reconhecer os seus partidrios. Diz o economista Samuel Pessoa, tambm do Ibre-FGV: H muito mais complementaridade do que discrepncias. Eles compartilham das mesmas crenas na estabilidade macroeconmica, no cumprimento dos contratos e na observao dos preceitos democrticos. Esse  o lado bom. O lado ruim  quase uma lei natural. Tucanos e petistas acreditam em um modelo de sociedade baseado em carga tributria alta e gastos sociais elevados. Lembra Pessoa: Todos os grupos polticos com alguma chance de chegar ao poder no Brasil hoje comungam desses mesmos princpios.

ELES COBRAM CADA VEZ MAIS CARO
A curva da arrecadao de impostos em relao ao tamanho da economia brasileira s conhece um rumo: para cima. Seja o governo bom ou ruim

(carga tributria total em % do PIB)
1945: 12,6%
Eurico Gaspar Dutra (1946-1952)

1950
Getlio Vargas (1952-1954)
Caf Filho (1954-1955)

1960: 18,7%
QUEDA TRANSITRIA - Com JK e Joo Goulart, o PIB cresceu acima da arrecadao, diminuindo a carga total. Mas o dficit publico saiu do controle.
Juscelino Kubitschek (1956-1961)
Joo Goulart (1961-1964)
Castelo Branco (1964-1967)
Costa e Silva (1967-1969)

1970: 26%
Garrastazu Mdica (1969-1974)
Ernesto Geisel (1974-1979)


1980
Joo Figueiredo (1979-1985)

1990: 29,6%
VOLATILIDADE ELEVADA - Nos anos Sarney, a tributao teve altos e baixos, oscilando sob o caos financeiro da hiperinflao e dos planos econmicos.
CHOQUE NAS FINANAS - O arrocho do Plano Collor derrubou brevemente arrecadao, mas, logo em seguida, ela voltaria a subir continuamente.
Jos Sarney (1985-1990)
Fernando Collor (1990-1992)
Itamar Franco (1992-1994)

2000
Fernando Henrique Cardoso (1995-2002)

2010
Dilma Rousseff (2011)

A EVOLUO DOS INDICADORES
Desde o ps-guerra, a qualidade de vida dos brasileiros tem melhorado gradativamente  e em praticamente todos os governos.

RODOVIAS (em quilmetros asfaltados)
Anos 50-60: 3122
Anos 70: 49.263
Anos 2000: 170.903
Ano 2010: 218.640

REDE DE ESGOTO (em % de domiclios)
Anos 50: 8,59%
Anos 70: 13%
Anos 90: 38,8%
Ano 2010: 52,5%

CRIANAS NA ESCOLA (entre 5 e 9 anos, em %)
Anos 50: 10,5%
Anos 60: 32%
Anos 90: 62%
Ano 2010: 94,5%

EXPECTATIVA DE VIDA (em anos)
Anos 50: 43
Anos 60: 55,5
Anos 70: 51,4
Anos 90: 66,6
Anos 2000: 70,4
Ano 2010: 73,4


2. AINDA PODE FICAR PIOR
El-Erian, estrela das finanas, acha que a economia mundial corre o risco de ter menos crescimento, mais desemprego, mais instabilidade e mais protecionismo.
ANDR PETRY, DE NOVA YORK

     A crise mundial  dura, mas Mohamed El-Erian, de 54 anos, no parece atingido por isso. S no ano passado, ele ganhou 100 milhes de dlares por seus servios na Pimco, lder mundial na gesto de investimentos com sede em Newport Beach, na Califrnia. A Pimco administra ativos de 1,8 trilho de dlares. Se fosse um pas, estaria entre os dez mais ricos do mundo. Desde a crise financeira de 2008, El-Erian  uma estrela das finanas internacionais em ascenso. Lanou Mercados em Coliso, livro que recebeu alguns dos mais importantes prmios de literatura econmica. Transformou-se na cara mundial da Pimco e em provvel sucessor do fundador, Bill Gross. Passou a aparecer nos principais canais de TV especializados em economia, como CNBC e Bloomberg, e tornou-se articulista do jornal Financial Times. El-Erian  um dos raros homens de mercado que falam com os bancos centrais de igual para igual.
     Na quinta-feira passada, depois que o Banco Central Europeu finalmente decidiu comprar os ttulos soberanos dos pases mais encrencados, como Espanha e Itlia, El-Erian ficou mais aliviado com os contornos da crise europeia: O Banco Central Europeu agiu, mas ainda precisa de ajuda das demais entidades governamentais. Como est, no  o suficiente. Para ele, o mundo ainda corre riscos. Nesse caso, a economia mundial ter crescimento mais baixo e desemprego mais alto, particularmente entre os jovens. Com um ambiente de instabilidade financeira, sero maiores as probabilidades de uma onda protecionista varrer o planeta. Mas o Brasil, diz El-Erian, embora no possa escapar do contgio de uma eventual piora da economia mundial, pelo menos est numa posio razoavelmente boa para enfrent-la: As dinmicas do crescimento so slidas, a dvida  relativamente baixa e as reservas so robustas.
     Filho de um diplomata egpcio, El-Erian passou a infncia no Cairo at se mudar para Nova York. Ele trabalhou quinze anos no Fundo Monetrio Internacional antes de entrar na Pimco. Saiu para gerir os fundos da Universidade Harvard, cargo de altssimo prestgio em que se misturam a nata das finanas e a elite da intelectualidade americana, mas voltou para a Pimco menos de dois anos depois. Em sua biografia, El-Erian combina elementos que, aparentemente, podem parecer contraditrios. De famlia muulmana, ele foi criado em uma cultura secular, que o fez defensor ardoroso da democracia e da separao total entre religio e estado. Em aparente contradio, El-Erian  um tubaro do mercado financeiro, mas vota em Barack Obama. Ele  a melhor pessoa para tirar o pas dessa situao difcil em que se encontra. Tambm espero que as eleies em novembro resultem em um Congresso menos polarizado. El-Erian respondeu por e-mail s seguintes perguntas formuladas por VEJA:
     
O senhor tem falado em desacelerao econmica global sincronizada. O que isso quer dizer? 
 o que estamos vivendo: uma desacelerao simultnea do crescimento em todas as principais regies do mundo. A Europa est entrando em recesso, os Estados Unidos esto crescendo a 2%, na melhor das hipteses, e as principais economias emergentes, incluindo o Brasil e a China, tambm esto crescendo menos. O problema com esse fenmeno  que, na falta de polticas adequadas, a soma de 1 mais 1 mais 1 pode ser mais que 3. Em outras palavras, o mundo corre o risco de entrar num crculo vicioso, dificultando a retomada do crescimento em qualquer economia importante. Espero que essa tendncia seja revertida, mas temo que no ser. E, se no for, o cenrio global vai complicar. O crescimento ser muito baixo e o desemprego, muito alto, em especial entre os jovens. Os pases muito endividados, principalmente os da Europa, ficaro mais vulnerveis s crises financeiras, e aumentar o risco do protecionismo e de instabilidade financeira global.

O senhor tem dito que a crise na Europa vai piorar. Por qu? 
Ainda existe esse risco, apesar do forte ativismo do Banco Central Europeu. A Europa enfrenta cinco problemas interligados: crescimento muito baixo, dvida muito alta, polarizao poltica, polticas pblicas deficientes e crescente mal- estar social. Em razo disso, uma crise que comeou na periferia da zona do euro, a Grcia, est migrando para o centro, contaminando mais e mais pases. Quanto mais essa tendncia persistir, mais difcil ser a soluo. A Europa pode cair numa dcada perdida pior do que a de 80 na Amrica Latina.

Qual a sada? 
A partir das impressionantes reaes do Banco Central Europeu, a zona do euro precisa complementar a unio monetria com unio fiscal e bancria, e maior integrao poltica. Talvez a Europa tenha de optar por uma unio menor. Mas  difcil. Nenhum lder europeu quer voltar na histria e ser responsvel pela retirada de um pas da zona do euro.

O que falta para os Estados Unidos? 
Para voltarem s altas taxas de crescimento e de gerao de empregos, os Estados Unidos tm de avanar em pelo menos quatro reas. Precisam fazer uma reforma fiscal, combinando reduo do dficit a mdio prazo com reformas nos gastos e nos impostos. Precisam reformar o mercado imobilirio e o financiamento habitacional. Construir novos canais para o escoamento do crdito, pois os convencionais no funcionam. E melhorar a infraestrutura.

Falta consenso ou dinheiro para isso? 
Consenso. O problema americano  de poltica, no de engenharia. O Congresso est extremamente polarizado. As rixas esto na ordem do dia. Nos ltimos trs anos, o Congresso no aprovou o oramento federal e tambm no consegue cumprir com um dos mais elementares componentes da governana econmica.

H pouco tempo, o Brasil era uma estrela da economia mundial. Subitamente, tudo mudou. A imprensa internacional at alerta investidores sobre os riscos de investir no Brasil. O que houve? 
No concordo que a percepo sobre o Brasil tenha mudado dramaticamente. O Brasil segue trilhando um caminho promissor, apesar do baixo crescimento. Tambm estou otimista com a reao das autoridades econmicas brasileiras at aqui. Nenhum pas tem como evitar os efeitos negativos da crise. A Europa e os Estados Unidos so as maiores regies econmicas, os maiores importadores e os maiores fornecedores. Tm as instituies financeiras mais conectadas do mundo. Assim, qualquer desequilibrio econmico e financeiro prolongado ter impacto em outros pases.

O Brasil resistir? 
O Brasil est em boa posio para navegar na tempestade. As dinmicas do crescimento so slidas, a dvida  relativamente baixa e as reservas so robustas. O fundamental  monitorar de perto a evoluo interna e a externa. 


3. GUSTAVO IOSCHPE  POR QUE SOMOS TO POUCO AMBICIOSOS?
     Fui fazer faculdade nos Estados Unidos em 1995 e depois voltei para mais dois anos de mestrado l. Sa mais otimista em relao ao Brasil do que quando cheguei. At aquela poca, o contato com os EUA se resumia a frias, filmes e encomendas trazidas de viagem. Sob esse prisma, o pas parecia uma Terra Prometida, onde tudo era bom e barato e as pessoas, ricas e civilizadas. Se era assim na mdia, imaginei que depararia com verdadeiros super-homens nas universidades Ivy League para as quais me dirigia. Felizmente, eu me decepcionei. Meus colegas americanos eram muito mais ignorantes e superficiais do que eu imaginara. E, fora as questes intelectuais, me chamou a ateno seu desajuste emocional. Parecia que todo mundo estava ou brigado com os pais, ou tomando antidepressivos ou indo a festas para beber at cair. Muitas pessoas se encaixavam nas trs categorias. Se esse pessoal conseguiu construir a potncia hegemnica do planeta, pensei eu, ns tambm podemos. Yes, we can!
     A volta ao Brasil depois de oito anos foi, porm, surpreendente. Porque era (e segue sendo) claro que o pas se divide em dois grupos. Um  cosmopolita, aguerrido, preparado e ambicioso. Gente que tem fome, que quer competir com o que h de melhor no mundo. Ayrton Senna. O outro  provinciano, malemolente, com baixa instruo, acomodado. Um pessoal que est satisfeito com o que a vida lhe deu. Macunama. Impossvel quantificar construtos to subjetivos, mas diria sem medo de errar que o segundo grupo  muito mais numeroso do que o primeiro.
     Prova indireta disso  que os slogans dos presidentes democraticamente eleitos nas ltimas dcadas  portanto, afinados com a mentalidade coletiva  pertencem quase todos ao segundo grupo. Sarney: Tudo pelo social. Itamar: Brasil, unio de todos. Lula I: O melhor do Brasil  o brasileiro. Lula II: Brasil, pas de todos. Dilma: Pas rico  pas sem pobreza. Todos esses olham para dentro e para trs: o foco  sanar desigualdades, incluir, corrigir os erros do passado, glorificar o que temos. Com exceo do Avana, Brasil de FHC, ningum faz meno ao mundo exterior ou ao futuro, ningum almeja tornar o Brasil aquilo que, at por suas dimenses e riquezas naturais, ele deveria naturalmente querer ser: uma potncia mundial.
     Compreender e explicar essa acomodao est alm deste espao e deste colunista, mas as consequncias desse esprito so claras: ficamos muito abaixo do que poderamos ser. Tanto a literatura acadmica (disponvel em twitter.com/gioschpe) quanto a minha experincia de vida tm me mostrado que a gana individual  perseverana, resilincia, ambio   fator fundamental no sucesso de uma pessoa, aliada  qualidade de sua formao. No faltam inventividade e persistncia ao brasileiro: o problema  que os sonhos de muitos compatriotas so bem mais acanhados do que poderiam ser. Algum j disse que o homem prudente  como o bom arqueiro: mira sempre um pouco acima do alvo. O Brasil j mira abaixo do que deveria, e portanto acaba alcanando ainda menos do que ambiciona.
     Em nenhum lugar esse rasgo da nossa psique est mais aparente e imbricado com uma complexa relao de causalidade do que em nosso sistema educacional. Se a nossa pouca ambio j vem de famlia, certamente ela  muito reforada em nossas escolas. Em um perfil do professorado brasileiro traado pela Unesco e pelo MEC, 75% dos professores declararam preferir a igualdade  liberdade. O objetivo da nossa escola  homogeneizar, no desenvolver talentos. Um levantamento de 2007 do Inep, o rgo de pesquisas do MEC, identificou 2553 alunos superdotados na educao brasileira. Para identificar menos de 3000 superdotados em uma rede de mais de 50 milhes de alunos  preciso um esforo consciente de cegueira. Eis a uma diferena bsica entre o que vivi em escolas brasileiras e universidades americanas: aqui, o bacana era o cara que no estudava, baladeiro, safo. O aluno aplicado  nerd, otrio. L, assim como em outros sistemas educacionais de ponta, valorizado  o aluno que estuda muito e tira timas notas. Nos EUA, os melhores alunos entram para honors lists; na Alemanha, h sistemas educacionais diferentes para aqueles com ambies acadmicas mais altas; na China, os alunos so ranqueados e precisam de boas notas para adentrar as melhores escolas e, depois, as universidades. Aqui, o histrico escolar da pessoa no importa. O jogo  zerado no momento da entrada para a universidade, decidido por meio de um nico teste (vestibular ou Enem). No Brasil, h uma estranha percepo de que recompensar os melhores e mais aplicados seria romper o thos republicano. Nossos professores descreem de seus pupilos: s 7% deles acreditam que quase todos os seus alunos chegaro  universidade, segundo questionrio da Prova Brasil 2009. Nosso desastre educacional tambm desestimula ambies ao tirar do brasileiro o preparo intelectual que  o pr-requisito para voos mais altos. Pesquisa do Inaf mostra que 74% dos adultos brasileiros no so plenamente alfabetizados. Com esse despreparo, sonhar muito alto pode ser sinal de doena psiquitrica.
     A m educao causa a falta de ambio e  tambm causada por ela. Nos pases que deram grandes saltos, a educao no foi percebida como um fim, mas como parte de um projeto nacional. China do sculo XXI ou, Coreia da dcada de 70, Estados Unidos dos anos 30, Japo do ps-guerra: nesses e em outros casos, os pases perseguiam um sonho de grandeza. A educao no era o ponto de chegada, mas parte da ponte at o futuro glorioso. Parte do nosso problema  que, ao no termos um projeto nacional inspirador, a educao deixou de ser uma questo dos brasileiros e se tornou propriedade dos professores e funcionrios. Alguns deles tm esprito pblico e generosidade e fazem o melhor que podem para os seus alunos e, consequentemente, o pas. Mas a maioria acaba se acomodando em um sistema que no incentiva o mrito, nem pune o demrito; as nicas causas que defendem so as suas prprias.
     Mas ser que precisamos ser mais ambiciosos? O Brasil j apareceu nas primeiras posies em levantamentos internacionais de felicidade. Os cticos diro que optamos por menos ambio e desenvolvimento em troca de mais bem-estar, sociabilidade e alegria. Acho essa uma falsa dicotomia.  possvel ser simultaneamente desenvolvido e alegre. Na ltima pesquisa Gallup sobre felicidade mundial, realizada de 2005 a 2011, os dez primeiros colocados eram todos do Primeiro Mundo e os dez ltimos, subdesenvolvidos. Sou ctico quanto  qualidade de uma escolha tomada em situao de pobreza intelectual como a que temos no Brasil. Longe de mim sugerir que analfabetos no devam poder decidir sobre a vida deles. Democracia e liberdade so valores supremos. Mas seria demaggico supor que a qualidade das decises que uma pessoa toma no muda com melhorias radicais de instruo. Pesquisas mostram que pessoas mais instrudas fumam menos e so mais saudveis. Finalmente, no creio que seja lgico ou tico optar pelo nosso atual patamar de desenvolvimento, quando ele significa que tantos milhes de pessoas estariam condenadas a uma vida indigna, da mais absoluta privao. Eu no teria problema de viver em um Brasil que, a exemplo da Frana, optou por reduzir a semana laboral, trocando riqueza por lazer e famlia  desde que o Brasil chegue ao patamar da Frana, em que h riquezas acumuladas para bancar a preguia e validar a deciso de pegar leve. O Brasil ainda no chegou l. Temos um caminho longo. Convm mirar mais alto do que vimos fazendo.

